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Aldeias femininas de Portugal: as mulheres e a memória dos lugares

Foto do escritor: walkingtourwithvanessa
walkingtourwithvanessa
3 de nov. de 2025
6 min de leitura

Atualizado: 15 de out.

Não é visível à primeira vista. Mas, quando começamos a escavar — sabes, como quem escava a terra — começamos a encontrar figuras, rostos e histórias de mulheres que fizeram parte da vida dos lugares, mesmo quando os seus nomes não chegaram até nós.


Hoje, proponho-te um exercício de olhar: pensar as aldeias portuguesas como lugares de memória feminina.


aldeia de Portugal, concelho Barcelos


As minhas raízes e o feminino da aldeia


Nasci e cresci numa pequena aldeia do concelho de Barcelos, no Minho, em Portugal.

Cresci no seio de uma família matriarcal e, quando olho para a minha aldeia, reconheço nela muitas das marcas desse universo feminino: as mulheres que cuidam, que trabalham, que aconselham, que transmitem conhecimentos e que mantêm vivas as histórias da família e da comunidade.


Esta experiência pessoal leva-me a uma pergunta: serão as aldeias, tal como as cidades, também lugares femininos?


A historiadora Michelle Perrot dedicou parte do seu trabalho à forma como as mulheres foram representadas, silenciadas ou afastadas dos relatos tradicionais da História. O seu olhar ajuda-nos a perceber que a experiência feminina não pode ser reduzida ao espaço doméstico. O trabalho, a rua, o mercado e os lugares de encontro também fazem parte dessa história. A mulher rural é a mais pública de todas as mulheres.


Ao contrário da cidade, nas aldeias, esta relação com o espaço ganha contornos particulares. A igreja, o campo, o tanque de lavar a roupa, o mercado ou o caminho entre casas são lugares onde se cruzam vidas, trabalhos e relações de vizinhança.


As mulheres nas aldeias de Portugal: histórias e património


Pensa na mãe que transmite o enxoval à filha, na costureira que ensina a tratar da roupa, nas lavadeiras que conhecem os segredos das famílias ou na mulher que guarda uma receita antiga, aprendida com a mãe e a avó.


São gestos aparentemente pequenos. Repetidos ao longo de gerações, constituem, porém, uma parte importante da memória de uma comunidade.


Durante muito tempo, o trabalho das mulheres esteve ligado à manutenção da casa, à agricultura, à criação dos filhos, à alimentação e ao cuidado de familiares. Em muitas comunidades rurais, estas tarefas coexistiam com outras atividades produtivas, embora nem sempre fossem reconhecidas da mesma forma que o trabalho masculino.


Quando os homens partiam para a guerra, para o mar ou para a emigração, muitas mulheres assumiam responsabilidades acrescidas na gestão da casa, da terra e da família.


Em muitas das aldeias de Portugal, o tempo tem o rosto das mulheres.


Às vezes, ele é enrugado, marcado pela passagem, pela dureza da vida e pela miséria. Outras vezes, é um rosto jovem, de criança, de menina com o olhar inocente, cheio de sonhos e ânsias de ver o além dos campos.


São as mulheres que madrugam para acender o lume, que regam as hortas, que amassam o pão ou que lavam a roupa no tanque. São elas próprias o ciclo das estações: sabem quando plantar, o que plantar, quando colher e quando deixar repousar.


(A agricultura em Portugal continua a ser, na maioria, sustentada pelas mulheres).


Os saberes femininos: entre a tradição e a memória


Mas o património feminino da aldeia não se encontra apenas no trabalho. Também vive nas vozes que ecoam nas festas, nas rezas, nas lendas, nas histórias contadas à mesa e nos conhecimentos.


Quem nunca ouviu falar de uma mezinha preparada pela avó? De um chá cuja receita era transmitida. De uma oração repetida em momentos de aflição?


Lembro-me, por exemplo, das receitas que passam de geração em geração, como o chá de casca de cebola que a minha avó me dava em criança para aliviar a tosse.


A aldeia é, no seu todo, um espaço de transmissão de saberes femininos. E esse património imaterial não existe separado das pessoas. Precisa, urgentemente, de quem o pratique, de quem o conte e de quem o queira transmitir.


E as mulheres, em muitas comunidades, representam um papel fundamental nessa continuidade.


A aldeia torna-se, assim, um lugar de memória viva. Não porque o passado permaneça intacto, mas porque os seus gestos, conhecimentos e histórias continuam a ser reinterpretados no presente.


Pensar as aldeias femininas de Portugal


Pensar na aldeia como um lugar feminino é reconhecer o valor do invisível, do lento e do essencial.


É olhar o território e ver nele o reflexo do cuidado, da resistência e da memória feminina. É também uma forma de reconciliação entre o passado e o presente, entre o humano e a natureza, entre o feminino e o mundo.


É esse olhar que procuro sempre. Não só na cidade, mas também nas aldeias. Porque todos os lugares guardam camadas e camadas de histórias femininas à espera de serem contadas.


Dar voz à mulher é, afinal, dar vida aos lugares.

O silêncio e a ausência feminina na paisagem


Porém, nas aldeias, como nas cidades, as mulheres construíram o quotidiano, cimentaram bases e tradições, mas, mais uma vez, não foram inscritas na paisagem, e muito menos escritas pelos livros, dadas a conhecer. Com isto quero dizer que o feminino não está (nem deve estar) apenas na imaterialidade. Ele também se revela (e deve revelar-se) na materialidade dos lugares: nas placas, nos nomes das ruas, nas memórias gravadas em pedra.


Na maioria das aldeias portuguesas, as ruas, placas ou monumentos evocativos homenageiam santos, datas, batalhas ou figuras masculinas. É curioso que, quando o feminino aparece, quase sempre vem através do sagrado, como se o único lugar de destaque para a mulher fosse um altar.


Na minha aldeia, por exemplo, encontro dois nomes femininos: o Largo de Santa Ana e a Rua de Nossa Senhora de Fátima. Evocam a santidade, disfarçada de mulher. Quanto às outras, as que ficaram, as que cuidaram, as que lavaram, as que criaram, parece-me que ficaram esquecidas, algures perdidas no tempo, sem memória pública.


Não quero dizer que estas mulheres estejam completamente ausentes da memória das aldeias. Sei que muitas permanecem os arquivos, no testemunhos orais, nos objetos guardados nas casas e nas recordações de quem ainda as consegue nomear.


A qestão é outra: até que ponto essas memórias foram reconhecidas como património coletivo?


A aldeia pode ser feminina nos gestos quotidianos e permanecer masculina na forma como a sua história é representada e contada. Esta é uma hipótese que merece ser analisa em cada território, olhando para os nomes, os monumentos, os arquivos, e as memórias locais.


É igualmente um convite a olhar de novo. A procurar aquilo que ficou de fora. A escavar mais uma vez a terra.


Mulheres que fizeram história nas aldeias portuguesas


Quando começamos a procurar, encontramos mulheres cuja história nos permite olhar para os lugares de outra maneira.


Em Abade de Neiva, no concelho de Barcelos, a memória de D. Mafalda de Sabóia está ligada à iniciativa da fundação de um mosteiro de 1152. A atual igreja constitui um importante acervo patrimonial, sendo considerada Monumento Nacional.


Em Galegos de São Martinho, também concelho de Barcelos, nasceu Rosa Ramalho, uma das figuras mais reconhecidas no artesanato português. A sua trajetória permite-nos pensar no papel da mulher nos saberes artísticos, na transmissão de ténicas e na valorização do património artesanal.


Na Póvoa de Lanhoso, a Revolta da Maria da Fonte, em 1846, recorda-nos a participação das mulheres numa contestação popular que ultrapassou os limites da comunidade e se alargou a outras regiões do país. A identidade exata da figura associada ao nome Maria da Fonte continua a suscitar debate histórico, mas a participação feminina nos primeiros levantamentos é parte importante desta memória.


São histórias diferentes, ligadas a épocas e contextos diferentes. Mas têm algo em comum: mostram-nos que a história das mulheres não se encontra apenas nas grandes cidades, nos lugares habitualmente destacados nos roteiros históricos.


Também se encontram nas aldeias, nos ofícios, nas comunidades e nos territórios que tantas vezes percorremos sem conhecer as histórias que guardam.


E quantas outras continuam por descobrir?


Como descobrir as histórias femiminas de uma aldeia


Da próxima vez que percorreres uma aldeia portuguesa, proponho-te um pequeno exercício.


Começa pelos nomes das ruas. Quantos são nomes de mulheres? Quem são essas mulheres? Representam figuras religiosas, personagens históricas ou mulheres que tiveram uma ligação concreta à comunidade?


Depois, observa os monumentos, as placas e os edifícios. Há alguma inscrição que te desperte curiosidade? Algum nome que nunca tenhas ouvido? Algum ofício tradicional que tenha sido desenvolvido por mulheres?


Questiona, analisa. Torna a tua visita numa imersão.

É este exercício de observação e descoberta que me interessa: olhar para o território e perceber que aquilo que vemos é apenas uma parte da sua história.


É olhar o território e procurar nele sinais do cuidado, do trabalho, da resistência e da memória.

É compreender que o património não se limita àquilo que foi monumentalizado. Também vive das mais pequenas e simples coisas, nos gestos, nas palavras, nos objetos e nas histórias que continuam à espera de ser contadas.


É esse olhar que procuro levar enquanto guia e autora de experiências culturais. Todos os lugares guardam camadas e camadas. E, por vezes, precisamos de aprender a olhar de outra maneira para as encontrar.


Dar a conhecer as histórias e patrimónios das mulheres é também descobrir outras formas de compreender os lugares.


Talvez tenhas uma aldeia dentro de ti, feita de memórias, vozes e gestos de mulheres que te antecederam.


Se este artigo te fez pensar nos lugares que percorres e nas histórias que ainda desconheces, convido-te a continuar essa descoberta comigo.


Na Walking Tour with Vanessa, exploro as relações entre mulheres, lugares e patrimónios através de experiências culturais e de propostas que nos convidam a observar o mundo com mais curiosidade.


Com carinho,

Vanessa

 
 
 

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