As mulheres de Barcelos na Inquisição Portuguesa
No século XV, a Europa Ocidental mergulhou numa onda de perseguições em que o medo e a ignorância se voltaram, em particular, contra mulheres que ousavam afastar-se dos papéis que lhes eram tradicionalmente atribuídos.
Curandeiras, viúvas, parteiras, mulheres com conhecimentos sobre ervas e medicina, mulheres que viviam de forma independente ou que professavam uma religião diferente da cristã eram, muitas vezes, vistas com desconfiança. Algumas acabavam acusadas de bruxaria, feitiçaria ou heresia, ficando sujeitas à perseguição dos tribunais da Inquisição.
Acusadas de heresia e de estabelecerem pactos com o diabo, muitas mulheres foram silenciadas. O medo e as crenças da época ajudaram a alimentar um imaginário em torno da figura da bruxa, que acabou por se tornar uma presença recorrente na cultura popular e no folclore.
Recentemente, mergulhei nos arquivos digitais da Inquisição Portuguesa. A realidade é que encontrei dezenas de processos de mulheres naturais ou moradoras de Barcelos que foram presas e condenadas pelo Tribunal do Santo Ofício.
Estas mulheres, cujos nomes tantas pessoas desconhecem, caminharam pelo mesmo chão que eu, residente em Barcelos, piso diariamente e que tantos outros visitam.
Por isso, tornou-se importante para mim recuperar os seus nomes. Mesmo sabendo tão pouco sobre as suas vidas, conhecer a sua existência permite-nos olhar para Barcelos e para o seu património de outra maneira.

As bruxas no folclore português
Quando analisamos o património imaterial português, percebemos que a tradição popular está repleta de contos, lendas e mitos, muitos deles associados ao diabo e às bruxas.
Atrevo-me a dizer que praticamente todas as regiões têm, pelo menos, uma lenda associada a uma bruxa.
O folclore, enquanto expressão da sabedoria popular, é fundamental para preservar a identidade cultural e a memória coletiva de um povo. Através dele, transmitem-se tradições de geração em geração.
É importante protegê-lo e dar-lhe continuidade. Nele guardamos costumes, lendas, danças, festas e saberes que contam a história de um determinado lugar.
O folclore contribui também para a coesão social: une comunidades e cria sentimentos de pertença e partilha. Portugal é particularmente rico nestas manifestações, que encontramos nos ranchos folclóricos, nos trajes tradicionais, na gastronomia e nos contos que atravessaram gerações.
O folclore é, afinal, o resultado de um povo vivo e depende das gerações seguintes para continuar vivo.
E, claro, as bruxas também fazem parte deste universo.
Bruxas: mulheres com saberes
Ao longo da história, as mulheres foram frequentemente apresentadas como protagonistas de reuniões noturnas com o diabo e associadas a práticas de feitiçaria.
Em 1487, foi publicado o livro O Martelo das Feiticeiras (Malleus Maleficarum), cujos autores, Heinrich Kramer (Institoris) e Jacob Sprenger, defendiam que as mulheres, por serem consideradas naturalmente mais fracas e intelectualmente inferiores, estariam mais predispostas às tentações do diabo.
No que diz respeito a Portugal, este manual não teve a mesma influência que noutros territórios europeus. A tradição teológica tomista, fortemente influenciada pelo pensamento de São Tomás de Aquino, contribuiu para uma postura mais cética de alguns inquisidores e setores da Igreja relativamente a determinadas manifestações de bruxaria.
Isto não significa, naturalmente, que não tenham existido casos de perseguição, tortura e condenação.
Acontece que, em Portugal, a atenção do Tribunal do Santo Ofício estava particularmente centrada nas práticas judaicas e na perseguição aos cristãos-novos. Ainda assim, quando olhamos para os processos de mulheres acusadas de superstição, feitiçaria e bruxaria, encontramos histórias que nos permitem conhecer um pouco melhor a realidade da época.
Muitas destas mulheres eram solteiras ou viúvas, tinham idades próximas dos 50 anos e eram conhecidas nas suas comunidades pelos conhecimentos que possuíam. Algumas eram procuradas para realizar feitiços de amor, outras conheciam plantas e as suas propriedades, preparavam mezinhas, faziam curas ou ajudavam nos partos.
A cultura popular, transmitida pelos nossos antepassados, foi construindo uma imagem da bruxa como uma figura sombria, capaz de lançar malefícios e provocar desgraças.
Mas quem eram, afinal, estas mulheres?
Em Barcelos, entre os séculos XVI e XVII, encontramos mulheres acusadas de bruxaria e feitiçaria que eram, maioritariamente, cristãs-velhas e pertenciam ao povo.
Mulheres cujos nomes ficaram registados nos autos foram arrancadas do quotidiano das suas casas sob a acusação de "judaísmo"
No entanto, também existem casos cuja acusação era precisamente bruxaria e feitiçaria, o que mostra o reflexo da época de que certamente eram mulheres que tinham conhecimentos sobre o corpo e sobre plantas medicinais.
Elas sabiam quais as ervas a colher, como preparar mezinhas e que rezas a proferir para aliviar o sofrimento dos enfermos.
Para o Tribunal do Santo Ofício, porém, determinados conhecimentos ancestrais e o poder informal que as mulheres detinham nas suas comunidades eram vistos com profunda desconfiança. Algumas práticas de cura e rezas, por exemplo, eram interpretadas como superstição, heresia ou pactos implícitos com o demónio.
O conhecimento e as práticas de cuidado que faziam parte da vida quotidiana de algumas comunidades podiam, assim, transformar-se em motivos de denúncia e perseguição.
É também de notar que muitas destas mulheres, depois de serem presas, eram levadas numa longa viagem até aos cárceres do Tribunal da Inquisição de Coimbra, que tinha jurisdição sobre o norte do país.
Embora nenhuma tenha enfrentado a pena de morte na fogueira, as condenações à abjuração pública, às penitências espirituais, ao degredo ou ao uso de hábito penitencial deixavam marcas profundas.
Aquelas que conseguiam regressar a Barcelos traziam consigo o estigma social. Passavam a ser reconhecidas como penitenciadas, sujeitas a vigilância e, muitas vezes, empurradas para situações de pobreza e exclusão.
Mulheres de Barcelos na Inquisição: acusações de bruxaria e feitiçaria
Ao consultar os registos da Inquisição, encontrei vários nomes de mulheres naturais de Barcelos que foram processadas por acusações de bruxaria, feitiçaria, superstição e pacto com o demónio.
Quero deixar aqui alguns desses nomes. Porque, mesmo que hoje pouco saibamos sobre as suas vidas, os seus processos permitem-nos recuperar uma parte da memória feminina de Barcelos.
Ana Antónia do Boco
Cristã-velha, natural de Barcelos (provavelmente Paradela), foi acusada de bruxaria e feitiçaria em 1623.
No auto da fé de 1624, foi-lhe lida a seguinte sentença: confisco de bens, abjuração em forma, cárcere e hábito penitencial perpétuo, instrução na fé católica, degredo por quatro anos para o Brasil, desterro perpétuo do arcebispado de Braga e penitências espirituais.
Antónia Coelho
Cristã-velha, natural de Barcelos (provavelmente Palme), foi acusada de feitiçaria em 1657.
No auto da fé de 1660, foi condenada a abjuração de leve, degredo por dois anos para o couto de Castro Marim, cárcere ao arbítrio dos inquisidores, instrução na fé, penas e penitências espirituais e pagamento das custas.
Maria de Brito
Cristã-velha, natural de Barcelos, tinha 35 anos quando foi acusada de feitiçaria e bruxaria, em 1647.
No auto da fé de 10 de julho de 1650, foi condenada a abjuração de leve, degredo por dois anos para o couto de Castro Marim, cárcere ao arbítrio dos inquisidores, instrução na fé, penitências espirituais e pagamento das custas.
Cecília Gonçalves
Cristã-velha, com 40 anos, natural de Barcelos (Franqueira), foi processada em 1622, acusada de bruxaria e feitiçaria.
No auto da fé de 18 de junho de 1623, foi condenada ao confisco de bens, abjuração em forma, cárcere e hábito penitencial perpétuo, degredo para o Brasil por quatro anos e instrução na fé.
Teresa Dias
Cristã-nova, natural de Barcelos, foi processada em 1737 por feitiçaria, superstição e pacto com o demónio.
Sabemos que saiu no auto da fé do mesmo ano.
Maria Domingues
Cristã-velha, natural de Barcelos, era conhecida como a «Curandeira».
Foi processada pela Inquisição de Coimbra, em 1722, por feitiçaria, superstição e pacto com o demónio. Saiu no auto da fé de 14 de março de 1723.
Margarida
Cristã-velha, natural de Barcelos, foi acusada em 1623 de feitiçaria, pacto com o demónio e heresia. Saiu no auto da fé em 1625.
Mariana Antónia
Cristã-velha, com 60 anos, natural de Barcelos (Silva), foi acusada de bruxaria e feitiçaria em 1733.
No auto da fé de 5 de dezembro de 1734, foi condenada ao confisco de bens, a comparecer no auto da fé com carocha e rótulo de feiticeira, à abjuração em forma, cárcere e hábito penitencial perpétuo, a açoites públicos citra sanguinis effusionem, degredo para Angola por cinco anos, instrução na fé e penitências espirituais.
Estes são alguns dos nomes que consegui identificar nos registos relativos a acusações de bruxaria e feitiçaria em Barcelos.
São apenas nomes, datas e sentenças. Mas, por detrás de cada registo, existiu uma mulher, uma casa, uma família, uma comunidade e uma história que, na sua grande maioria, não chegou até nós.

Os lugares e a sua memória
Caminhar é, para mim, uma forma de re-conhecer.
Quando se passa pelo núcleo de Barcelos, pelas suas igrejas ou pelas ruas que outrora formavam o núcleo da vila medieval, estamos a percorrer lugares que guardam muitas histórias. Algumas conhecidas, outras esquecidas e tantas ainda por descobrir.
Estas mulheres também fizeram parte da história deste território. Viveram, trabalharam e caminharam por estas terras, muito antes de nós.
Recuperar as suas histórias e relacioná-las com os lugares onde viveram é uma forma de enriquecer a leitura do património.
Além disso, permite-nos olhar para a figura da bruxa para lá do imaginário popular. Em vez de a vermos apenas como uma personagem sombria, podemos questionar quem eram estas mulheres, que conhecimentos possuíam e por que motivo foram tantas vezes perseguidas.
Cada território carrega as marcas de quem o habitou. Quando olhamos para uma paisagem e conhecemos as mulheres que ali viveram, trabalharam ou foram perseguidas, o lugar deixa de ser apenas geografia. Ganha outras camadas de significado, identidade e pertença.
Tenho a certeza de que nunca mais olharei para estes lugares da mesma forma.
Agora sei que, por aquelas aldeias e pela própria cidade de Barcelos, viveram, muito antes de mim, mulheres que trabalharam, cuidaram de outras pessoas e foram acusadas de certamente possuir conhecimentos que a sociedade da época olhava com desconfiança.
Infelizmente, não chegaram até nós muitas informações sobre quem eram ou como viviam. Mas sei os seus nomes. E isso já importa muito.
A minha passagem por estas aldeias e pela cidade terá, a partir de agora, uma leitura completamente diferente. Não apenas como guia ou autora, mas também como mulher e residente.
Sinto que a história se tornou mais completa, que os lugares estão mais preenchidos de histórias femininas e que o património de Barcelos ganhou outras vozes.
Olhar para um território a partir da história e do património feminino é uma riqueza sem igual. É uma forma de descobrir outras narrativas, reconhecer outras protagonistas e perceber que há muito mais para conhecer nos lugares que julgamos conhecer tão bem.
E é precisamente esse olhar que procuro levar para as minhas caminhadas e experiências culturais.
E tu, como olhas para os lugares que visitas?
Acredito que viajar e caminhar não são apenas formas de conhecer novos lugares. São também oportunidades para observar melhor, descobrir histórias escondidas e criar ligações com os territórios que percorremos.
Foi também a partir desta vontade de olhar para os lugares de outra maneira que nasceu o meu Caderno de Viagem.
Um ebook pensado para te acompanhar nas tuas viagens e caminhadas, convidando-te a observar, registar, questionar e guardar aquilo que descobres pelo caminho.
Porque, muitas vezes, não precisamos de ir mais longe para descobrir algo novo. Precisamos apenas de aprender a olhar de outra forma.
Convido-te a fazer parte deste olhar.
Com carinho,
Vanessa



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