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Mulheres no teatro em Lisboa: uma outra forma de percorrer a cidade

Foto do escritor: walkingtourwithvanessa
walkingtourwithvanessa
6 de mai.
4 min de leitura

Atualizado: 29 de set.

Quando pensamos no teatro em Lisboa, pensamos facilmente nos grandes palcos, nos edifícios históricos, nas peças, nos dramaturgos e nas figuras que ficaram associadas à história do teatro português.


Mas há uma questão que me interessa particularmente: que histórias podemos descobrir quando olhamos para esses mesmos lugares através das mulheres que fizeram parte deles?


Foi a partir desta pergunta que nasceu o percurso Lisboa em Cena - Mulheres e o Teatro, criado em parceria com a Peddy+.


walking tour feminista - Lisboa em cena, mulheres e o teatro


O teatro também se lê através das mulheres

A história do teatro português, como tantas outras histórias culturais, foi sendo construída e contada sobretudo a partir de nomes masculinos.


Durante muito tempo, as mulheres tiveram uma presença muito condicionada nos palcos e nas estruturas teatrais. Em determinados períodos, nem sequer podiam representar personagens femininas que, por sua vez, eram interpretadas por homens.


A entrada das mulheres no teatro aconteceu lentamente e em diferentes circunstâncias. Algumas tornaram-se atrizes reconhecidas. Outras escreveram, dirigiram, produziram, ensinaram ou participaram na vida cultural dos espaços teatrais.


Conhecer estas mulheres não serve apenas para acrescentar nomes a uma cronologia.

Muda a forma como lemos os lugares onde estas histórias aconteceram.


Um teatro deixa de ser apenas um edifício bonito ou um palco conhecido. Passa a ser o lugar onde determinada mulher representou, criou, trabalhou, enfrentou obstáculos ou encontrou uma possibilidade de construir a sua própria história.


É esta a relação entre mulheres, lugares e património que me interessa explorar.


Lisboa: ganha outras histórias quando caminhamos


Uma das coisas que mais gosto nos walking tours é precisamente esta possibilidade de caminhar devagar.


Quando atravessamos uma cidade a pé, começamos a reparar em coisas que facilmente passam despercebidas.


Um edifício. Uma fachada. Um teatro. Uma praça. Uma rua.

E, de repente, uma história que transforma aquele lugar.


É por isso que acredito que conhecer um lugar não passa apenas por saber onde estão os seus monumentos ou conhecer as datas mais importantes.


Passa também por perceber quem esteve nesses lugares e que histórias podemos encontrar quando mudamos o nosso olhar.


Lisboa está cheia dessas possibilidades.


Lisboa em Cena - Mulheres e o Teatro


Foi assim que surgiu o percurso Lisboa em Cena - Mulheres e o Teatro.


Ao longo do percurso, caminhamos por diferentes espaços ligados à história do teatro em Lisboa e conhemos mulheres que fizeram parte desse universo.


A ideia não foi percorrer a cidade a correr, acumulando factos históricos, datas ou nomes.


Foi, como habitual, sobre parar, observar, conversar, relacionar histórias.

E perceber como cada uma delas pode acrescentar uma narrativa diferente ao lugar onde estamos.


Criar um percurso também é uma forma de investigar


Este percurso nasceu de uma parceria com a Peddy+, uma microempresa de animação turística dedicada a revelar patrimónios e histórias menos conhecidos.


Quando surgiu a oportunidade de criar este percurso, encontrei uma forma de juntar várias coisas que fazem parte do meu trabalho: investigação, património, escrita, caminhada e, sobretudo, curiosidade.


Gosto de começar por uma pergunta e seguir as pistas que ela me deixa.


Neste caso, a pergunta era simples:


O que acontece quando percorremos a história do teatro em Lisboa através das mulheres?


A resposta foi encontrando-se nos estudos, nos livros, nos arquivos, nos lugares. E foi dando origem a novas perguntas.


Não procuro apenas escolher um conjunto de lugares e contar aquilo que já sabemos sobre eles.


Interessa-me perceber que outras histórias podem ajudar-nos a conhê-los melhor.


Património também é aquilo que aprendemos a reconhecer


Há lugares que conhecemos durante anos sem saber verdadeiramente o que aconteceu neles.


Passamos à porta de um teatro. Sentamo-nos numa praça. Percorremos uma avenida.

E aquele espaço faz parte d apaisagem, mas ainda não faz parte da nossa memória.


Às vezes, basta uma história para isso mudar.


Quando descobrimos uma nova personagem, uma nova história ou uma nova perspetiva, a cidade não mudou — mas a nossa forma de a ver pode mudar.

E talvez seja essa uma das coisas mais bonitas de caminhar.


Uma Lisboa com muitas possibilidades de leitura


Este percurso pelo teatro é apenas uma das formas possíveis de conhecer Lisboa.


Podemos olhar para uma cidade através da literatura, da arte, da gastronomia ou das pessoas que nela viveram.


Eu escolhi, há algum tempo, começar pelas mulheres.


E quanto mais procuro, mais percebo que essa escolha me conduz a muitos outros lugares: histórias culturais, patrimónios esquecidos, profissões, espaços de criação, relações com a cidade e diferentes formas de viver o território.


É por isso que hoje não penso no meu trabalho apenas como uma forma de contar histórias de mulheres.


Penso nele como uma forma de ler os lugares através delas.


De parar perante uma cidade que julgávamos conhecer e perguntar:

e se olhássemos para isto de outra maneira?


Foi essa possibilidade que esteve na origem do Lisboa em Cena – Mulheres e o Teatro.


Um percurso para quem gosta de caminhar, de ouvir histórias e de descobrir aquilo que pode existir para lá da narrativa mais conhecida.


Porque, às vezes, não precisamos de ir para outro lugar para ter uma experiência diferente.


Precisamos apenas de aprender a olhar para o lugar onde já estamos.

E é isso que procuro fazer, uma caminhada de cada vez.



Com carinho,

Vanessa

 
 
 

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