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Terramoto de 1755 em Lisboa: onde estavam as mulheres?

Foto do escritor: walkingtourwithvanessa
walkingtourwithvanessa
1 de nov. de 2024
7 min de leitura

Atualizado: há 6 dias

Na manhã de 1 de novembro de 1755, Lisboa foi abalada por um dos acontecimentos mais devastadores da história de Portugal. O terramoto, seguido de um tsunami e de incêndios que se prolongaram durante vários dias, destruiu grande parte da baixa da cidade e mudou para sempre a sua paisagem.


Porém, quando pensamos no terramoto de Lisboa, de que histórias nos lembramos? Falamos da sua destruição, da reconstrução da baixa pombalina, de Marquês de Pombal e do nascimento de uma nova cidade.


Há uma pergunta, contudo, que se sobrepõem: onde estavam as mulheres quando Lisboa tremeu?


Vendedoras, religiosas ou senhoras da aristocracia e muitas outras faziam parte do diário de Lisboa do século XVIII. As suas vidas eram muito diferentes, mas todas elas pertenciam à história de uma cidade que, numa manhã de Todos-os-Santos, mudou para sempre.


Para compreender o que aconteceu nesse dia, vale recuar um pouco e conhecer Lisboa que existia antes de 1755.



lisboa antes do terramoto de 1755
fonte: Lisboa em azulejo

Como era a cidade Lisboa antes do terramoto de 1755?


Antes do terramoto, Lisboa era a cidade mais importante do reino português e uma das mais importantes da Europa. A sua ligação ao comércio marítimo e ao império português fazia da capital um centro de circulação de mercadorias, pessoas, culturas e riqueza.


A vida urbana concentrava-se essencialmente na Baixa e na zona ribeirinha, ou seja, junto ao rio, no Terreiro do Paço e na Ribeira. Aqui encontrava-se espaços comerciais, edifícios administrativos, residências e atividades ligadas ao rio Tejo.


O Terreiro do Paço, a Ribeira e as ruas que ligavam estas zonas ao Rossio faziam parte de uma cidade movimentada, onde o comércio e o trabalho ocupavam um lugar central.


O Rossio era outro dos grandes polos da vida lisboeta. Ali se encontrava o Hospital Real de Todos os Santos, uma instituição fundamental na assistência aos doentes. Um desejo de D. João II, inaugurado por D. Manuel e também construído com a ajuda de D. Leonor.


Antes do terramoto, Lisboa era uma cidade tipicamente medieval. As ruas eram estreitas, irregulares e condições de higiene bastante precárias. As casas, na sua maioria, não possuíam grande atratividade arquitetónica e a cidade era malcheirosa, devido aos despejos efetuados ao ar livre.

Esta era a Lisboa que existia antes do grande terramoto: uma cidade onde o esplendor do império coexistia com o trabalho árduo de quem procurava sobreviver.



antes do terramoto Lisboa
fonte: Lisboa em azulejo

O que aconteceu no terramoto de Lisboa de 1 de novembro de 1755?


Ainda não eram 10 horas da manhã do dia 1 de novembro de 1755. Era um sábado.

O terramoto atingiu Lisboa com uma violência implacável. Os edifícios ruíram, as ruas encheram-se de escombros e o pânico tomou conta de quem procurava escapar à destruição.


Como era dia santo, muitas pessoas encontravam-se nas igrejas, onde se celebravam missas à luz de velas e círios. Outras estavam nas suas casas ou já tinham saído para as ruas.


Depois dos abalos, a catástrofe continuou. Um tsunami atingiu a zona ribeirinha e as águas invadiram áreas próximas do Tejo. Seguiram-se incêndios que consumiram edifícios e destruíram grande parte do que ainda restava da cidade.


A dimensão da tragédia foi tão grande que os seus efeitos ultrapassaram as fronteiras portuguesas. O acontecimento suscitou debates sobre a natureza, a religião, a ciência e a própria condição humana.


A destruição de Lisboa tornou-se, assim, um dos episódios mais marcantes da história europeia do século XVIII.


Em 1756, iniciaram-se as limpezas da cidade e, em 1758, começou a reconstrução propriamente dita.


A cidade começava a mudar, ainda que lentamente, deixando para trás a velha medievalidade e transformando-se num centro iluminista, moderno e amplo, onde todas as ruas desembocavam numa grande praça: a Praça do Comércio.


Mas, no meio dos relatos sobre a catástrofe, há uma pergunta que merece maior atenção: como viveram este acontecimento as mulheres de Lisboa?


Onde estavam as pessoas nas ruas, especialmente as mulheres?


No dia a dia da cidade mais importante do reino, a maioria das ruas da Baixa estava cheia de artesãs, peixeiras e vendedoras de flores, que lutavam pela sua subsistência num dia de trabalho árduo.


Na zona da Ribeira, caminhavam homens ligados à construção e reparação de barcos, como carpinteiros e pescadores. Entre a Ribeira e o Terreiro do Paço, as mulheres passavam grande parte do seu tempo atarefadas com as suas atividades.


Eram elas quem dominavam o comércio nas ruas pequenas e estreitas, vendendo peixe, frutas, legumes e, em muitos casos, pão.


Além disso, por ser uma área próxima do rio, eram comuns as lavadeiras de roupa. Muitas pessoas escravizadas também faziam parte do quotidiano de Lisboa. As mulheres escravizadas carregavam baldes de água suja e lixo das casas onde trabalhavam, percorrendo a cidade até chegarem às praias de Alfama e da Ribeira. Eram conhecidas como calhandreiras.


Outras mulheres vendiam comida nas ruas, partilhando o espaço com os pedintes. Muitas vendiam também carvão ou arranjavam peixe. As mulheres ciganas circulavam igualmente pelas ruas de Lisboa antes do terramoto, sendo frequentemente associadas a práticas mágicas, o que despertava tanto a procura dos lisboetas como a desconfiança e a repressão por parte das autoridades.


A presença das mulheres religiosas era notável, pois trabalhavam arduamente na confeção de doces conventuais e na produção de bordados para vender. O número de noviças era tão elevado que muitos conventos tinham dificuldade em sustentá-las.


As mulheres da alta sociedade, embora não frequentassem as ruas com tanta frequência, saíam ocasionalmente nos seus coches adornados. Era comum ver, à janela das casas abastadas, uma condessa ou outra senhora, acompanhada da sua criada, a observar o que acontecia lá fora.


A catástrofe trouxe miséria e duras dificuldades a uma cidade destruída. As pessoas que não estavam feridas ou mortas conseguiram refugiar-se em locais mais altos, longe da devastada Baixa.


Contudo, essa fuga foi muito penosa para as mulheres, já que as ruas estavam cheias de destroços, exigindo saltos e até escaladas sobre os escombros. Para as mulheres do século XVIII, essa tarefa poderia transformar-se num verdadeiro pesadelo.


Lisboa antes do terramoto de 1755
fonte: Lisboa em azulejo

A solidariedade da Rainha D. Mariana Vitória


Entre os exemplos de ajuda após o terramoto encontra-se o da rainha Mariana Vitória, mulher de D. José I.


A rainha e as suas filhas participaram em iniciativas de assistência aos feridos e aos sobreviventes, num contexto em que os meios de socorro eram insuficientes para responder à dimensão da tragédia.


A participação de mulheres da família real e de outras senhoras da aristocracia na assistência aos necessitados evidencia uma dimensão importante da resposta à catástrofe: o papel das redes de solidariedade e da caridade.


Contudo, é importante não reduzir a ajuda prestada às mulheres da elite. A sobrevivência e a reorganização da vida quotidiana dependeram também de inúmeros gestos de cuidado, trabalho e entreajuda que nem sempre ficaram registados nos relatos históricos.


Sabe-se que a destruição foi imensa. Os hospitais destruídos deram lugar a hospitais temporários em casas de nobres. Algumas mulheres doentes foram alojadas nos celeiros do Conde de Castelo-Melhor. Além disso, dos 26 conventos femininos, apenas dois sobreviveram.


A reconstrução de Lisboa e a vida das mulheres


A reconstrução de Lisboa foi um processo longo, que transformou profundamente a cidade.


Sob a direção política do governo de D. José I, com Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal, a Baixa foi redesenhada segundo um plano urbanístico que privilegiava ruas mais regulares, quarteirões organizados e novas soluções construtivas.


A Lisboa pombalina, com a sua malha urbana geométrica e a Praça do Comércio, tornou-se um símbolo da reconstrução após o terramoto.


Para as mulheres que dependiam do comércio, do trabalho doméstico e de outras atividades urbanas, reconstruir a vida significava também recuperar clientes, encontrar espaços de trabalho e assegurar o sustento quotidiano.


Um exemplo desta transformação foi a criação do mercado da Praça da Figueira, pensado no contexto da reorganização da cidade após o terramoto, com o objetivo de concentrar o comércio num espaço próprio, em vez de o manter disperso pelas ruas de Lisboa.


A Praça da Figueira é também um dos lugares que integro no meu olhar sobre a cidade e que exploro no ebook Um Caderno de Viagem — Outras Histórias para os Mesmos Lugares, onde te convido a descobrir outras narrativas e a olhar para os lugares de Lisboa a partir de novas perspetivas.


Como o terramoto de 1755 transformou Lisboa


A catástrofe de 1755 deixou uma marca profunda na paisagem urbana e na memória coletiva.

A reconstrução da Baixa deu origem a uma cidade diferente da Lisboa medieval que existia antes do sismo. As novas ruas, os edifícios e as soluções de construção tornaram-se referências fundamentais da arquitetura pombalina.


O acontecimento teve igualmente um impacto importante no pensamento europeu. A observação dos efeitos do sismo contribuiu para novas formas de estudar os terramotos e de compreender os fenómenos naturais.


A dimensão da destruição levantou questões sobre a segurança dos edifícios, a organização das cidades e a capacidade de resposta perante grandes catástrofes.


Hoje, quando percorremos a Baixa de Lisboa, caminhamos por uma paisagem profundamente marcada por esse acontecimento.


Mas as pedras, as praças e as fachadas não contam toda a história.


Para compreender Lisboa, precisamos também de olhar para as pessoas que nela viveram: quem trabalhava nas ruas, quem cuidava dos outros, quem procurava sobreviver e quem teve de reconstruir a vida depois de perder quase tudo.


E, entre essas pessoas, estavam as mulheres.


Redescobrir Lisboa através das histórias das mulheres


O terramoto de 1755 é uma das grandes referências da história de Lisboa. Conhecemos os relatos da destruição, a reconstrução da Baixa e as decisões políticas que moldaram a cidade que chegou até nós.

Mas existem outras perspetivas por descobrir. O que nos conta a cidade sobre as suas mulheres? Onde está o património feminino?


São questões que me acompanham nas caminhadas que preparo.


Acredito que conhecer Lisboa através das suas mulheres não significa contar uma história separada da história da cidade. Muito pelo contrário, significa acrescentar outras histórias, conhecer outro património e aprender a olhar os lugares com mais curiosidade.


Se também gostas de descobrir as histórias que se escondem por detrás das ruas, convido-te a continuar esta viagem.


Queres explorar Lisboa através de uma nova perspetiva?


~ Vem caminhar comigo: na caminhada Uma outra história de Lisboa, percorremos as ruas da cidade para descobrir histórias de mulheres, patrimónios e memórias que merecem ser conhecidas.


Com carinho,

Vanessa





Com carinho,

Vanessa

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