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Dulce de Montalvo: a poetisa que Barcelos quase esqueceu

  • Foto do escritor: walkingtourwithvanessa
    walkingtourwithvanessa
  • 5 de fev. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: há 19 minutos

Quem caminha pela rua D. António Barroso – mais conhecida como Rua Direita – no centro histórico de Barcelos, dificilmente repara numa pequena placa informativa fixada numa das fachadas.


É compreensível que passe despercebida. Está colocada um pouco acima da linha do olhar e a sua tonalidade mistura-se com a pedra antiga do próprio edifício. Mas essa discrição diz muito mais do que parece. Porque essa placa assinala a casa onde nasceu Dulce de Montalvo, uma poetisa barcelense cuja memória a cidade quase deixou cair no esquecimento.


E hoje, não. Hoje, vou-te falar dela.


Barcelos, cidade onde nasceu a poetisa portuguesa Dulce de Montalvo

O dia em que descobri Dulce de Montalvo


Não me recordo do dia exato em que descobri Dulce de Montalvo, mas lembro-me perfeitamente da sensação que me ficou.


Uma espécie de arrebatamento silencioso. A consciência súbita de que, na cidade onde nasci, viveu uma mulher cuja poesia é melodia para os nossos ouvidos, quase como se nos conhecesse intimamente.


Ao ler os seus versos pela primeira vez, senti que não estava apenas diante de palavras bem escritas, mas de uma presença. A sua poesia é autêntica, é intensa, mas, acima de tudo, emocionalmente honesta e madura. Entre os versos, desenha-se uma mulher sensível, audaz, criativa, inquieta – talvez doce, talvez inconformada. Certamente à frente do seu tempo.


Os seus poemas dialogam connosco. Há uma proximidade que não se explica muito bem e, em certos momentos, quase a imaginamos sentada ao nosso lado a escrever.


Identifico-me com Dulce de Montalvo de uma forma difícil de explicar. Talvez pela influência assumida de Florbela Espanca, talvez porque, em determinados versos, reconheci emoções que já foram minhas. Ou talvez porque há vozes que, mesmo separadas por décadas, finalmente se encontram.


O que sei é isto: sempre que passo pela Rua Direita, o gesto é automático. Olho para a casa onde nasceu e viveu. Porque conhecer a história das mulheres muda a forma como habitamos os lugares.


Quem foi Dulce de Montalvo?


Dulce de Montalvo é o pseudónimo literário de Maria do Carmo de Lima Bandeira Ferreira.

Nasceu em 1914, em Barcelos, na Rua Direita. Era filha de um comerciante — proprietário da confeitaria e pastelaria A Moderna — e de uma mãe doméstica que lecionava francês e piano.


Dulce de Montalvo sentada a escrever
Imagem de Biblioteca Digital do Cávado

Foi precisamente a mãe, Maria da Glória de Lima Bandeira Ferreira, quem lhe ensinou as primeiras letras. Mais tarde, Dulce frequentou o Colégio Bom Jesus da Cruz, em Barcelos, e o Colégio de Santo António, em Caminha.


Desde muito jovem revelou uma profunda ligação às letras. Dedicou-se à leitura, ao jornalismo e, sobretudo, à poesia. Mas a sua escrita não se ficou pela contemplação: foi uma voz ativa na defesa das mulheres, publicando artigos em jornais nacionais sobre temas ligados ao feminismo e à condição feminina.


Colaborou com publicações como O Barcelense, Jornal de Braga e a revista Portugal Feminino, em Lisboa — um espaço fundamental de pensamento e afirmação das mulheres no início do século XX.


Dulce de Montalvo foi uma mulher curiosa, viva, pouco vulgar para o seu tempo. Amava a vida e tudo o que nela havia de belo, mas não ignorava a injustiça, a hipocrisia e as contradições sociais.


Faleceu prematuramente, aos 23 anos, em 1938. O seu legado chegou até nós através da obra Vibrações da Vida, publicada um ano após a sua morte. Um livro que revela uma mulher inquieta, sensível, guiada pelo sentimento e pela razão.


O esquecimento das mulheres na literatura portuguesa


Uma das questões que mais me inquieta — enquanto mulher, autora e guia — é a quantidade de mulheres apagadas da história literária portuguesa.


Sabemos que o currículo escolar é limitado. Mas como me dizia uma professora amiga, bastaria apresentar uma nova autora (ou autor esquecido) por ano nas aulas de Português para abrir portas, referências e imaginários.


Como isso raramente acontece, muitas destas mulheres são descobertas por acaso. Ou através de notas de rodapé. Ou por referências indiretas em obras de escritoras mais conhecidas.


O resultado é quase sempre o mesmo: Quem foi ela? O que escreveu? Porque não a conhecemos?


Com Dulce de Montalvo acontece exatamente isso. As gerações mais velhas de Barcelos ainda reconhecem o seu nome. As mais novas, não. E quando a memória não é transmitida, ela dissolve-se.


Cidade de Barcelos, onde viveu a poetisa portuguesa Dulce de Montalvo

Para quando uma homenagem?


Valorizar começa por conhecer. E conhecer implica contar.


Em Barcelos, existe uma placa informativa na casa onde Dulce nasceu e viveu. Existe também uma pequena praceta com o seu nome. São gestos importantes, mas insuficientes quando não são acompanhados de contexto, educação e narrativa.


Uma rua com um nome feminino só ganha significado quando sabemos quem foi essa mulher e porque merece ser lembrada.


Barcelos tem poucas estátuas dedicadas a mulheres. Uma homenagem pública a Dulce de Montalvo — junto à casa onde nasceu — seria mais do que simbólica. Seria um compromisso com a memória, com a cultura e com uma história mais justa.


Porque as cidades também educam. E aquilo que escolhemos homenagear diz muito sobre quem somos.


Conhecer Barcelos através das suas mulheres


Conhecer a história de Dulce de Montalvo é conhecer Barcelos de outra forma. Mais profunda, mais humana, mais consciente.


No dia 15 de fevereiro, vou dinamizar excecionalmente um tour feminista em Barcelos, em formato coletivo, onde histórias como a de Dulce ganham corpo, lugar e voz no espaço público.

É um convite a caminhar com tempo, escuta e reflexão — e a descobrir a cidade através das mulheres que a habitaram, pensaram e escreveram.


Se sentes que este olhar te chama, podes saber mais ou reservar o teu lugar através do meu contacto ou do formulário no site.

Porque as mulheres merecem ser vistas.E a história também se escreve a caminhar.




Espero por ti!



Com carinho,

Vanessa

 

 
 
 
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